sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Trabalhador resgatado de condição análoga à escravidão recebe prêmio nacional

Em uma manhã banhada de chuva se deu nosso diálogo florido de anedotas, gargalhadas e reflexões. Considero que se houvesse uma “dose” também beberíamos, para brindar a vida e a chuva que há três dias regava sua roça. “A chuva é vida”, disse ele. Marinaldo Soares Santos, 44 anos, aprendeu com o pai a contar “braças de terras” e tendo esse saber, sentia-se incomodado quando percebia que seus companheiros eram enganados pelos empregadores. “Às vezes eu chegava e perguntava - rapaz, tu roçou quantas braças de terra? E o cara dizia: umas 50 braças. Eu olhava pra terra limpa e na verdade ele tinha roçado mais de 100, mas não sabia. Às vezes a gente tinha até medo de explicar pra eles.” Medo do patrão? Perguntei atento. ”Isso mesmo e de ser até morto pelo patrão”, respondeu pensativo.

Estar diante de um homem como Marinaldo, que passou por 12 fazendas e, em quase todas, foi submetido a condições desumanas, chegando a ser resgatado três vezes da escravidão, ouvi-lo e olhar em seus olhos, é sentir na alma o rebuliço de nossas fraquezas diante de pequenos problemas e perceber-se ingrato perante a vida.
Na fazenda Barbosa, ele escutou quando Firmino, dono da Fazenda, falou para o cozinheiro salgar a comida. “Ele mandava salgar a comida, pra gente beber muita água, a gente comia só arroz branco com ovo, o ovo era cozido de manhã, quando a gente ia comer meio dia já tava roxo, e era um pra cada. Quando dava três da tarde eu tava me tremendo de fome”. Na fazenda Terra Roxa, Marinaldo também lembra um fato sobre a comida. “De longe, eu vi Maria mexendo umas coisas com o pé, cheguei bem perto e vi que ela tava espalhando o feijão com o pé, perguntei - Maria porque você tá mexendo nossa comida com o pé? Ela respondeu que o pé dela era mais limpo do que aquele feijão e disse que tava espalhando com o pé porque tava com nojo de usar a mão, quando olhei pro feijão não tinha mais massa, era só as cascas e os bichos, aqueles tapuru”.
De todas as fazendas que enfrentou, a Barbosa foi a que mais lhes deixou marcas, que ele expõe com tristeza, mas vez em quando não resiste a uma boa gargalhada. É nessa hora que percebo a força desse grande homem e sua gratidão pela vida.
Ao lembrar de um fato sobre um rapaz que havia sido açoitado com uma vara pelo patrão, reforça o quanto há de senso de justiça dentro de Marinaldo. Ele enfrentou o carrasco. “Falei pra ele: Seu Firmino, não bata no rapaz não, se o senhor não quer mais os serviços dele, se não tá gostando dos serviços dele, manda ele ir embora, mas o senhor não pode bater nele não”. O rapaz foi embora da fazenda sem receber o pagamento, foi embora pegando carona e vendeu a capivara que criava de estimação, conta Marinaldo. Firmino, além de escravocrata, era traficante, tinha em suas terras plantação de maconha, abusava sexualmente de crianças e adolescentes, especificamente meninos, e tinha porte ilegal de armas. Ameaçava os trabalhadores, torturava, jurava de morte e os mantinha em suas terras alegando dívidas, além de serem obrigados ao trabalho forçado e sem direito a receber pagamento. Ele dizia pra nós: “essa arma aqui é pra dar tiro no joelho de peão, pra secar a baba, pra ver como é que anda”. Mesmo tendo consciência de toda crueldade desse típico coronel, Marinaldo, que parece carregar consigo o próprio machado de Xangô, não lhe desejava a morte “se matasse ele, estaria perdendo nosso direto”.
O machado da Justiça conduzia suas mãos, seus pensamentos e por muitas vezes lhe deu forças para enfrentar o ódio e mais ainda, aconselhar com sabedoria o covarde patrão que ameaçou de morte os trabalhadores por ter ficado sabendo que alguns queriam lhe denunciar. “O senhor não pode sair por aí dizendo, ameaçando as pessoas de morte, sem saber a verdade, primeiro o senhor tem que perguntar pra elas”.
Marinaldo, um ser-humano esperançoso, contemplativo e de sorriso largo. Liderou companheiros para denunciarem as fazendas onde estavam sendo submetidos a condições de escravidão. Ele permanecia na fazenda, enquanto um companheiro saia para denunciar. Ficar na fazenda era também uma forma de proteger os amigos. Marinaldo é um homem destemido e protetor. Certa vez disse ao patrão: “Não faça nada com nenhum dos meus parentes, é melhor me matar, porque se não…”. Os recados eram sempre claros e diretos e os fazendeiros de alguma forma temiam-no. Sobre o feijão com bichos, chegou a chamar o patrão de porco e este, apesar de ter se estremecido de ódio, nada tentou contra a vida de Marinaldo.
Marinaldo, um negro, vítima da escravidão contemporânea, resgatado três vezes das mãos de fazendeiros escravocratas, hoje é uma liderança em Pindaré Mirim e Monção no Estado do Maranhão e participa ativamente de encontros e atividades organizadas pelo Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos – Carmen Bascarán.
Marinaldo recebeu, no dia 14 de dezembro de 2016, o Prêmio Nacional de Direitos Humanos na categoria Combate e Erradicação ao Trabalho Escravo. O Prêmio de Direitos Humanos é a maior condecoração do Governo Federal às instituições e lideranças que lutam no enfrentamento às violações dos Direitos Humanos. Ao perguntar sobre o prêmio, ele respondeu “é meu porque foi eu que fui lá e recebi, mas sinto que é nosso”.
* Xico Cruz é escritor, poeta e Coordenador das atividades socioculturais do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos – Carmen Bascarán.

Nenhum comentário:

Postar um comentário