sábado, 2 de maio de 2015

Lula critica duramente projeto de lei da terceirização

São Bernardo do Campo (SP) – O ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, criticou duramente o projeto de lei que regulamenta a terceirização no Brasil (PL 4.330/2004), na terça-feira (28), no discurso de abertura do Simpósio Ação Coletiva, Democracia, Trabalho no Centro das Transformações Sociais. O evento, organizado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) juntamente com a Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU), em parceria com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, busca analisar os 35 anos das grandes greves do ABC paulista e o futuro das negociações coletivas.
Segundo Lula, o projeto de lei representa um retrocesso a 1930, anterior à Era Getúlio Vargas. “Estão tentando estabelecer uma relação de trabalho, na qual só tem um vencedor, o patrão, e milhões de perdedores, que são os trabalhadores.” Lula também comparou os que atualmente defendem o PL 4.330 com o pensamento da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) no período da Constituição de 1946. “Naquele tempo, a Fiesp achava que as férias não deviam durar mais de 10 dias, sob o argumento de que o ócio faria mal ao trabalhador, de que ele iria beber, brigar com a família. Temos que dizer não. Ninguém lutou tanto para conquistar liberdade, respeito e direito para agora perder tudo isso por causa de um pequeno grupo de pessoas”, afirmou, acrescentando que a presidente Dilma Rousseff deverá vetar a proposta.
O ex-presidente elogiou a iniciativa do procurador-geral do Trabalho, Luís Camargo, de promover o simpósio. “Possivelmente vocês vão demorar a compreender a importância do gesto de reunir trabalhadores e o Ministério Público para discutir um pouco do nosso país.” Em declaração exclusiva ao MPT, o ex-presidente destacou o papel do simpósio. “Eu acredito que um evento que reúne a experiência do MPT com a do Sindicato do Metalúrgicos é extremamente importante para criar uma consciência política e que a gente possa construir uma boa relação de contratação coletiva. Eu acho que assim podemos produzir propostas relevantes até para convencer a sociedade brasileira e evitar medidas como essa da terceirização, que é um retrocesso na vida do povo trabalhador deste país.”
Antecedentes – Além de relembrar a grande greve de 1980, quando 140 mil metalúrgicos paralisaram suas atividades por 41 dias, Lula revelou bastidores de anos anteriores, desde que se tornou dirigente sindical, em 1969, e as greves de 1979 e de 1978. “Naquele tempo, você era preso por entregar um boletim na fábrica. A gente também não tinha aqueles carros de som de hoje. Era um fusquinha com corneta e a garganta não aguentava.”
Lula afirma que o avanço nas negociações dos anos 1970 foi derrubar as pautas unificadas, que interessavam aos empresários, mas eram ruins para os trabalhadores, que tinham de abrir mão de muitas reivindicações em prol de uma coletividade que envolvia realidades bem diferentes entre as empresas. “Conseguimos mudar a lógica do jogo e passamos a negociar categoria por categoria. Empresa a empresa.”
As greves de 1978 representaram um marco na conquista, e, segundo Lula, tudo passou a ser mais fácil. Inclusive para realizar a greve geral de 1979. A greve de 1980 foi uma derrota em termos de negociação e motivou a prisão de Lula e dezenas de trabalhadores. “Mas foi uma grande vitória no sentido da evolução da consciência política dos trabalhadores”. O ex-presidente finalizou o seu discurso convidando os jovens presentes a estudarem mais a memória das greves e a assistirem aos documentários Linha de Montagem, de Renato Tapajós, lançado em 1982, e ABC da Greve, de Luiz Hirszman, concluído em 1990.
O simpósio continua durante todo o dia de hoje, com discussões sobre liberdade sindical e negociações coletivas.

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