quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Kit moleza: monografia no DF custa R$ 1.700 em média e valor pode ser parcelado em até quatro vezes


Não é difícil encontrar pessoas ou "empresas" especializadas na produção de monografias na capital federal. A maior parte dos anúncios é facilmente encontrada usando a internet como fonte de pesquisa e o valor médio cobrado para o desenvolvimento do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) para gradução, artigos científicos para pós-graduação e teses de doutorado gira em torno de R$ 1.700. Em alguns casos, o "negócio" pode ser parcelado em até quatro vezes sem juros, no cheque ou no cartão de crédito.
O professor titular de Direito Privado da UnB (Universidade de Brasília), Frederico Viegas, explica que esse tipo de situação acontece por falta de interesse, tempo, capacidade e, principalmente, "malandragem do aluno".

— Isso é considerado crime e é mais comum do que parece. Para mim, a incapacidade da pessoa de se formar aliada à malandragem e impunidade ajudam na manutenção dessas ocorrências.
Com o pretexto de "melhorar a monografia" para o curso de administração, a reportagem do R7 entrou em contato com cinco "empresas" que oferecem diferentes planos e formas de pagamento. Em uma delas, o vendedor S. cobrou R$ 100 por uma primeira consulta.
— Antes de falar qualquer coisa, preciso que você venha ao meu escritório para eu analisar a situação. Eu cobro por essa primeira consulta R$ 100. Depois, vou diagnosticar a situação e montar um plano de ação, com valores e formas de pagamento acertados para a sua necessidade de tempo  e produção.
Ele explica que é "até melhor começar o trabalho do zero", porque possui mais de quatro mil temas prontos para serem aplicados nos projetos.
— Se você tiver algo pronto, ótimo. Se não, eu faço tudo por você desde o início e você apresenta, certamente, dentro do prazo estabelecido pela faculdade. Tempo não vai ser o problema.

Em uma outra empresa, a vendedora F. afirma que o valor médio cobrado por página é de R$ 35, mas pode ficar mais caro caso seja necessária "a produção do zero a curto prazo".
— Uma monografia geralmente tem de 50 a 60 páginas e o valor, dependendo do caso, pode ficar em R$ 1.750. No entanto, se não tiver nada pronto, nós precisaremos produzir todo o trabalho rapidamente e isso pode deixar o projeto mais caro, subindo o preço para 2.400, mais ou menos.
Em todos os casos, as "empresas" oferecem no "kit" a produção da monografia e a entrega dela em formato virtual (normalmente por email), desenvolvimento de slides no Power Point, acompanhamento até a entrega do projeto e preparação para apresentação na banca examinadora.
Por conta dessa "assessoria", elas [empresas] além de garantirem a aprovação do aluno e também dizem que os trabalhos são totalmente inéditos, o que descartaria, em tese, o risco de ocorrer algum tipo de plágio. Além disso, durante as conversas telefônicas, as empresas afirmam que todo o processo de assessoria e produção dos trabalhos é realizado por profissionais experientes no assunto, com títulos de mestres e/ou doutorados.
No entanto, Viegas alerta que esse tipo de prática, se descoberta, é considerada crime da falsidade ideológica e, em alguns casos, até de plágio.
— É fácil descobrir se o produto foi produzido ou não pelo aluno pela própria capacidade de escrita e aprendizagem que ele demonstra na prática durante o curso. Além disso, se jogarmos um trecho de qualquer frase do trabalho no Google, podemos descobrir se ele foi copiado ou adaptado de alguém que o havia produzido anteriormente.
O advogado e constitucionalista Humberto Oliveira explica que a pena para quem comete o crime de falsidade ideológica, previsto no artigo 299 do Código Penal Brasileiro, é de até três anos de reclusão. Para ele, "não há desculpas para um aluno que justifica falta de tempo comprar um trabalho acadêmico de conclusão de curso ou até um mero trabalho de apresentação durante a vida acadêmica".
— Infelizmente é uma conduta criminosa, imoral e muitas instituições de ensino não possuem um compromisso voltado para ensinar, mas para lucrar. Desta maneira, a oferta e a procura por trabalhos acadêmicos aumentam ano a ano sem nenhum interesse por parte das instituições de ensino, da sociedade e das autoridades em solucionar este problema na fonte, ou seja, no ensino que é ministrado aos alunos.
A opinião é bem parecida para o professor da UnB Frederico Viegas. Ele acredita que a punição máxima, normalmente, é a reprovação do aluno e, em situações extremas e bem raras, o caso pode chegar ao conhecimento do MP (Ministério Público).
— Não resulta em prisão porque é um crime de menor potencial ofensivo. Acredito que tudo isso poderia ser evitado se a legislação colocasse uma pena mais severa, mais grave. Quem se prejudica é o próprio aluno, porque o risco de ser descoberto é muito grande.

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